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A prisão

 Apercebo-me, enfim, de minha prisão: ela começou cômoda, abriu-se e tornou-se mais cômoda. Em meu caminho de errático eremita: vi que todo fim era um começo. No fim, encontramos um começo e a escravidão torna-se mais branda até que a suavidade perca-se numa constante norma de sufocamento. Infelizmente, só posso ver paredes quanto estou próximo de me afogar. E quando me afogo, vem-me a necessidade de mudar. Quando mudo, a minha nova prisão me faz relaxar. A pergunta que não tem fim, mas tem metáfora é: qual é a melhor prisão? Essa pergunta descortina-se sempre numa série de mudanças as quais me abro, conquanto que eu ainda esteja peremptoriamente escravizado. De ideologia em ideologia, de música em música, de religião em religião: mudo-me de cárcere em cárcere, pois a próxima cela sempre tem um alvorecer do Sol quadrático ainda mais belo que a cela em que eu era anteriormente escravizado. Nessa eterna desgraça move-se a minha inconstante personalidade outonal. Vem-me sempre o parad...

Texto Experimental 2/10 - Havia um Gato Morto no Meio do Caminho - Alternâncias de Realidade

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Texto Experimental 2/10 Havia um Gato Morto no Meio do Caminho - Alternâncias de Realidade Eu passeava tranquilamente com meu cachorro pela praça, parei e vi um gato morto no meio do caminho. Assustei-me e olhei-o fixamente. O tempo transcorreu, cinco, dez ou quinze minutos. Fui embora e mantive o gato morto na minha mente. O gato morto virou minha flor da obsessão. Eu era um gato que andava pelo meio da floresta. Vi um humano morto deitado no chão. Parei, olhei o humano fixamente e fiquei a lamber meu pelo tediosamente. Alonguei-me, enrolei-me e botei-me a dormir perto do humano morto que estava num dormir perene. Havia um gato morto no meio do caminho. Eu era um homem morto no meio do caminho. Eu andava com meu cachorro morto no meio do caminho. Eu era uma rua morta no meio do caminho. Havia uma rua meio morta no meio do caminho morto. Eu era rua morta no meio do caminho que partia pro abismo. Eu era a morte que morre no caminho morto. Nos dias posteriores, o gato morto ain...

Texto Experimental 1/10 - Garota X - Realidade e Ficção

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Texto Experimental 1/10 Garota X - Realidade e Ficção Olho pro Rio Tietê, estou sentado e com uma corda no pescoço. Um piano solenemente toca em minha mente, é "Clair de Lune". Meus olhos lacrimosos olham para um abismo imaginário, um abismo que reside em meu coração. Um abismo que macula e destrói. Um abismo que pesa na minha alma e desestrutura todo meu ser. Penso em pular, pôr meu ser para se acabar. Percebo que aquele abismo, o abismo imaginativamente vejo, esteve a meu lado há muito tempo. É como se fosse um fiel amigo que partilhou de meus momentos mais íntimos, um familiar que comigo morou e cresceu. O abismo é a escuridão que bateu consubstancialmente ao meu coração em todos esses anos agônicos. Minha fiel penumbra! Enganei-me, tu não me acompanhas, querido abismo, és inteiramente parte de mim! Nego-te, mas é todo meu! E quando meu coração parar com esse maldito bater contínuo, serei igualmente todo seu, querido abismo. De repente, sinto alguém me abraçar forte ...